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Pampulha, de arraial a cartão postal de Belo Horizonte
Publicado em 10/12/2012 00:01:00



“Juscelino Kubistchek foi eleito prefeito e me explicou que queria fazer um bairro diferente, uma represa em Belo Horizonte, que iria ser um bairro fantástico. Ele estava com o maior entusiasmo. E pediu: ‘Olha, preciso do projeto Cassino para amanhã’. Então era difícil, no dia seguinte! Mas eu era jovem e tinha que fazer. Fui para o hotel, trabalhei a noite inteira e entreguei o projeto. E pra mim, com a tarefa de arquiteto, foi o início da minha arquitetura”. Oscar Niemeyer concretizou a ideia de um audacioso prefeito, que viria a ser presidente do Brasil. Imprimiu sua marca, as curvas, nas construções ao redor daquele espaço, idealizado para ser centro turístico e de lazer de Belo Horizonte e criou um complexo arquitetônico que destacou a cidade para o país e até para o mundo. O antigo Arraial Pampulha é hoje cartão postal da cidade, além de ser um local que concentra em seu território zoológico, aeroporto, estádio de futebol, ginásio poliesportivo, universidades e onde ainda é possível encontrar, em uma metrópole, cenas raras como jacaré e capivara convivendo em perfeita harmonia com os moradores.

Tudo começou com a vontade de transformar o imenso território afastado do centro da cidade em uma região que pudesse se tornar, além de um centro de entretenimento, símbolo da modernidade e do progresso de Belo Horizonte. Isso, ao redor da barragem que começou a ser construída na década de 1930. A retenção formou a Lagoa da Pampulha, inaugurada 8 anos depois, e que servia de reservatório para a capital, já que havia naquele tempo escassez de água potável devido ao intenso crescimento que a capital viu acontecer. Quando o centro de lazer e turismo da Pampulha foi inaugurado, em 1943, a região ainda era considerada distante da região central. Seus caminhos de acesso eram restritos (a Avenida da Pampulha, atual avenida Antônio Carlos, era a principal via e só foi construída em 1941). Essa distância dificultava sua ocupação. As décadas de 1940 e 1950, período de expansão industrial, trouxeram um crescimento considerável para a Pampulha. Começou a deixar de ser zona rural e passou a ser área residencial.

O cassino ao qual Niemeyer se referia manteve sua estrutura, mas os jogos não são mais a atração local. Desde 1957 passou a ser o Museu de Arte da Pampulha (MAP). Foi o pontapé inicial para todo o complexo de obras modernas. “Eu fiz o cassino e a obra começou”, contou certa vez o arquiteto. Começou mesmo. A partir das curvas e da ousadia de seus desenhos, nasceu o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, composto pelo cassino, pela capela de São Francisco de Assis, pelo Iate Clube e pela Casa do Baile, construções que colocaram Belo Horizonte no cenário da arquitetura moderna internacional e no roteiro turístico do país. Tal relevância proporcionou aprendizado ao profissional e seu trabalho manteve ligação direta com a capital do Brasil. “A Pampulha foi o início de Brasília, a mesma correria, os mesmos problemas. A minha preocupação do prazo, de fazer a coisa diferente”, afirmou.

Arraial Pampulha

Para os mais jovens pode ser difícil acreditar, mas a Pampulha já abrigava habitantes antes mesmo da inauguração de BH. A respeito do seu nome, inclusive, conta-se que foram os próprios moradores que denominaram. O Arraial Pampulha, como era conhecido, recebeu migrantes de Portugal, que quiseram transformar essa parte do Brasil em um lugar que os fizesse lembrar a sua antiga terra natal. Desta forma, batizaram a região com o mesmo nome do bairro onde viviam em Lisboa. Outro fato interessante sobre a região diz respeito à produção de alimentos e sua função de abastecimento para a capital. Na área rural da Pampulha do passado eram desempenhadas atividades agropecuárias nas suas inúmeras fazendas, sítios e chácaras. Criava-se gado e produzia-se leite. Plantavam-se milho, batatas, feijão, mandioca e hortaliças. Algumas fazendas podiam contar com engenhos de cana e moinhos d’água para produzir farinha. Os ofícios realizados na época, como por exemplo, carpintaria, tecelagem, selaria e fiação favoreciam o contato da região também com outros municípios próximos, como Contagem e Santa Luzia.

Entretenimento

Mantendo a tradição belo-horizontina, na Pampulha também se concentram diversos bares e restaurantes. Porém, outras opções de entretenimento estão disponíveis como o Zoológico, onde os visitantes encontram cerca de 1.200 animais de mais de 240 espécies entre répteis, aves, anfíbios e mamíferos, representantes dos cinco continentes e o Parque Ecológico, ou melhor, o Parque Promotor Francisco Lins do Rego. Criado em 2004, o nome é uma homenagem ao promotor público morto em 2002. A área de 30 hectares começou a passar por transformações desde 1997. O que hoje é espaço verde, com espelho d’água, cerca de 3 mil árvores e infraestrutura de lazer já serviu de depósito dos sedimentos retirados da Lagoa da Pampulha. O Zoológico e o parque são administrados pela Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte e recebem, anualmente, milhares de visitantes.

Patrimônio público

A Pampulha é um patrimônio da cidade que é mantido pelo poder público municipal com a contribuição da população e de organizações privadas, que adotam áreas verdes e ajudam a cuidar desse bem cultural da cidade. Além disso, para resguardar a beleza local foram criadas diretrizes especiais de construção. O arquiteto Wagner Siqueira, gente de Arquitetura e Engenharia Pública da Prefeitura de Belo Horizonte, esclarece sobre os procedimentos para elaboração de projetos naquela área. “Há a preocupação quando vai se realizar qualquer tipo de intervenção na Pampulha. Na administração pública executamos novas construções pensando sempre nas pessoas e nas especificações descritas na legislação. Recebemos demandas da população relacionadas à infraestrutura e criamos projetos de construções usuais, projetadas com materiais como vidro ou mesmo materiais mais leves, de forma que não interfiram na visualização do entorno”, disse.

Questionado se há desenhos de projetos elaborados em referência ao conjunto existente, o profissional esclarece. “O objetivo não é copiar as construções da orla, mas, sim, construir em uma proposta mais simplificada, evitando que a atenção seja direcionada a elas”, concluiu.
Na nova reorganização administrativa, ocorrida em 2011, a Pampulha ganhou território. Cresceu ainda mais. A população chegou a 187.066 pessoas, de acordo com o Censo 2010, distribuídas nos seus 63 bairros. Ao todo, a região abriga 90 equipamentos públicos municipais, divididos entre equipamentos de Educação, como Unidades Municipais de Educação Infantil (Umeis) e escolas municipais, de Saúde, como academias da cidade, Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e centros de convivência, de Políticas Sociais, como Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas) e BH Cidadania, e de Inclusão digital, como os Centros de Inclusão Digital.

Desde sua criação até os dias atuais são perceptíveis as mudanças ocorridas na Pampulha. O ex-prefeito e o então jovem arquiteto conseguiram concretizar o feito para a cidade. Obviamente, não podiam prever no que o lugar se tornaria. Muito tempo se passou, muita coisa mudou. Hoje, diversos são os atrativos que levam um público considerável à região, seja para caminhar em volta da orla, para descontrair em um dos botecos à beira da lagoa e na avenida Fleming, no bairro Ouro Preto, ou mesmo visitar o Zoológico e descansar no parque ecológico. Sem contar nas inúmeras idas ao Mineirão e ao Mineirinho em dias de jogos. Talvez a Pampulha atual não seja mais aquela idealizada por JK e Niemeyer, mas, no entanto, não é possível desconsiderar que mesmo após todo esse tempo, a Pampulha não perdeu suas características principais: sua beleza e diversidade. Em certo momento, Niemeyer disse que na criação de suas obras “procura uma coisa que tem certa fantasia, como na poesia. Não uma coisa rígida, com problema resolvido com régua e esquadro. É uma coisa que surge assim, como um sonho, uma coisa mais bonita”. Isso ainda é a Pampulha.

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